segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Luzeiro lança novo folheto de Cordel de Josué Gonçalves de Araujo

Apagando as Pegadas

As convenções sociais separam
Jose Mário e Lucineide. Meio século depois o forasteiro retorna a sua terra
atrás do que perdera na longínqua distância. Na busca do seu passado encontra
um presente que jamais imaginou. O tempo é senhor da história que reserva
surpresas incríveis. O que terá acontecido com eles?




Numa tarde nebulosa
De melancólico inverno,
Um ônibus enlameado,
Como se viesse do inferno,
Atravessa um nevoeiro,
Trazendo um homem de terno.

Enfim, Areia dourada!
Defronte a rodoviária,
A viagem então se finda.
A figura solitária,
Faz uma cara de dor,
Por culpa da coronária.

O passageiro que apeia
É um homem já idoso,
Com o terno amarrotado.
Negro de porte garboso,
Andava sob a neblina,
Com o passo cauteloso.

...

Desse cenário remoto,
Volta os olhos ao presente,
Mas em outra dimensão,
Ao tempo indiferente.
Forasteiro é sempre aquele
Que passa a vida ausente.

...

Contato:Autor: josuecordel@hotmail.com
Cel.: (11) 7421-8940
Editora Luzeiro Ltda
Fone: (11) 5585-1800
e-mail: vendas@editoraluzeiro.com.br

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Literatura de Cordel, Literatura Brasileira



APROPUC-SP 10.03.09
Aderaldo Luciano


1. Uma literatura da terra

A Literatura de Cordel, vista muitas vezes, ou quase sempre, como arte de segunda categoria, pela sua origem sócio-racial, é fenômeno ímpar. Afirma Joseph M. Luyten:

Ao contrário de outros países, como México e Argentina, onde esse tipo de produção literária é normalmente aceita e incluída nos estudos oficiais de literatura - por isso poemas como "La cucaracha" são cantados no mundo inteiro e o herói de cordel argentino, Martin Fierro, se tornou símbolo da nacionalidade platina - as vertentes brasileiras passaram por um longo período de desconhecimento e desprezo, devido a problemas históricos locais, como a introdução tardia da Imprensa no Brasil (o último país das Américas a dispor de uma imprensa), e a excessiva imitação de modelos estrangeiros pela intelectualidade (Luyten apud Vicente, 2000, prefácio).

Acrescentamos à observação do Dr. Luyten o aspecto preconceituoso com que as elites acadêmicas brasileiras olharam para a produção poética popular. De fato, nossos compêndios e manuais de história da literatura brasileira, incluindo-se livros didáticos destinados ao ensino fundamental e médio, desviam-se da Literatura de Cordel como o diabo da cruz, utilizando o termo "popular". Qualquer citação virá eivada de caráter exótico, nunca com apuro crítico. Como experiência, procuremos o verbete Literatura de Cordel na Enciclopédia de Literatura Brasileira, de Afrânio Coutinho e J. Galante de Souza. Encontraremos menção a dois ou três títulos de ensaios sobre o tema, mas nada sobre ela mesma. O verbete veio na letra C, "Cordel, literatura de". Esse verbete repete o Dicionário do Folclore Brasileiro, de Câmara Cascudo, ao mesmo tempo em que a associa à memória dos cantadores e vates populares, seus transmissores orais. Para depois passar à classificação dos temas versados, citando Franklin Maxado:

... folhetos de época, de ocasião, históricos, didáticos ou educativos, biográficos, de propaganda política ou comercial, de louvor ou homenagem, de safadeza... (Cascudo, 2002: 527)

E são arrolados uma infinidade de temas. Chama-nos a atenção o fato primeiro de o verbete não vir na letra L de literatura, mostrando-se excludente. Por que apresentá-la como Cordel? Será porque não é aceita como literatura?
Quando situa a literatura de cordel como versão escrita da oralidade poética dos cantadores, é, no mínimo, omissa, a Enciclopédia, chegando ao risível. Ora, toda a literatura universal não é herança da oralidade? A escrita não é fruto secundário da linguagem? Por que, então, observar isso como característica da literatura de cordel?
E no que diz respeito ao tema: toda a literatura não trata dos mesmos temas? Para quê uma listagem de temas, se a produção literária é fruto da observação social e da vivência particular de cada autor? Para mostrar, exoticamente, que, apesar de o autor popular ser um homem simples, preocupou-se com temas os mais diversos, como se estivesse descobrindo o mundo e seus semelhantes, emergindo das trevas profundas da ignorância?
Todas as literaturas nacionais têm a sua formação no conjunto de lendas e histórias contadas pelo seu povo, repassadas oralmente. A literatura grega funda-se sobre as narrativas homéricas. A teoria e a crítica literária tiveram sua gênese com as normatizações apresentadas por Aristóteles sobre esse corpus. Tomando, ainda, a literatura grega como arrimo, seus temas não passaram pelos mesmos da literatura de cordel? Não houve uma poesia didática com Hesíodo? E romances de amor e aventura com Xenofonte de Éfeso e Aquiles Tácio?
Poderíamos nos alongar sobre exemplos da literatura alemã com A canção dos Niebelungos; da francesa, com A canção de Rolando; da espanhola, com O cantar do meu Cid, ou ainda mencionar as baladas dinamarquesas do século XVII para sustentar o raciocínio sobre a formação das literaturas com gênese na oralidade como processo natural.
Tratávamos, em parágrafo anterior, da presença da literatura de cordel nos estudos sobre literatura brasileira. Aliás, tratávamos da ausência. Nenhum dos nossos reconhecidos estudiosos reserva-lhe lugar em suas obras principais. Sabendo-se que Leandro Gomes de Barros foi o primeiro a publicar seus folhetos e editá-los sistematicamente, não lhe é devida nenhuma citação em Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos, de Antonio Candido, nem em A Literatura Brasileira, de José Aderaldo Castelo, tampouco na História Concisa da Literatura Brasileira, de Alfredo Bosi. Dá-se o mesmo em Ronald Carvalho, Nelson Werneck Sodré e José Veríssimo. Sílvio Romero, embora não o cite, nem poderia, visto não terem sido contemporâneos, em sua História da Literatura Brasileira trata das tradições populares, referindo-se ao seu volume dedicado a estudos sobre poesia popular no Brasil.
Quanto aos livros didáticos, o que se apresenta é uma periodização das Épocas Literárias desde Portugal. Mesmo atribuindo valor ao trovadorismo português, ao cancioneiro de Garcia de Resende, às cantigas de Martim Codax e D. Dinis, ou Joan Airas de Santiago, escritos primevos, nada sobre Literatura de Cordel. É como se esse fenômeno não tivesse acontecido. Deve-se ao trabalho de pesquisadores particulares, paladinos e quixotes, a tentativa de integração e enquadramento dessa literatura no todo literário brasileiro, exemplo seguido por algumas instituições, como a Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, e Fundação Joaquim Nabuco, em Recife, Pernambuco, citando as mais conhecidas.
Que essas observações sejam feitas não como meta de nosso pequeno roteiro de estudos. Sejam, sim, uma marca a ser observada em nosso rumo. A constatação de como um produto tão rico e importante na construção de uma nação, a nação identitária dos nordestinos e a brasileira por extensão, por motivos os mais diversos, é esquecido do que Ariano Suassuna, citando Machado de Assis, diz ser o Brasil Oficial.
Arnaldo Xavier, no artigo O Maior Poeta que Deus Crioulo (Xavier, in www.muse.jhu.edu/demo/cal/18.4xavier_p.html), diz que a Literatura de Cordel "... é uma forma única de comunicação que mistura poesia, humor e epopéia." Essa compreensão acrescenta uma qualidade que pode inserir definitivamente essa forma de produção literária naquele todo brasileiro já citado. A característica épica.
As aproximações de Ariano Suassuna, vide o Auto da Compadecida, cujos heróis João Grilo e Chicó são crias confessas da Literatura de Cordel, e de João Cabral de Melo Neto, em Morte e Vida Severina, com seu Severino retirante, dão bem a dimensão do poder transformador do cordel.
Esse poder torna-se ainda mais observável quando propomos fazer uma aproximação com a épica clássica. Para vários autores, a literatura brasileira inicia com a Prosopopéia, de Bento Teixeira (1601), marco, também, do Barroco brasileiro. O poema épico traduz-se como uma imitação capenga de Camões, além de ser uma peça encomiástica que de literatura pouca coisa possui. No dizer de Anazildo Vasconcelos da Silva: "A importância da Prosopopéia está em ser a primeira obra, na ordem natural, a fazer a sintonia histórico-cultural do Brasil com o mundo" (Silva, 1987: 26).
Essa obra, detendo valor histórico-cultural, sobrepõe-se a toda produção do cordel, levada a cabo numa terra sobre a qual apenas os infinitamente mais fortes se fixam. Entre o valor literário da Prosopopéia e o valor literário da produção do cordel, quem estaria mais próximo do épico? O imitador de Camões ou o autêntico cancioneiro nordestino? Apresentar respostas com mais perguntas é, agora, o mais sensato. Que foi feito de Sousândrade? O Guesa foi esquecido, deixado à sombra, para só há pouco ser definitivamente incorporado ao Cânone da literatura brasileira. Mas, o que é o Cânone literário brasileiro? Certa vez, Olavo Bilac riu sobre os versos de Augusto dos Anjos, aquele caso singular da literatura brasileira. Comentando o título de Príncipe dos Poetas obtido, em votação, por Bilac, diz Carlos Drummond de Andrade:

Em 1913, certamente mal informados, 39 escritores, num total de 173, elegeram por maioria relativa Olavo Bilac príncipe dos poetas brasileiros. Atribuo a má informação porque o título, a ser concebido, só poderia caber a Leandro Gomes de Barros, nome desconhecido no Rio de Janeiro, local da eleição promovida pela revista FON-FON, mas vastamente popular no Nordeste do país, onde suas obras alcançaram divulgação jamais sonhada pelo autor de "Ouvir Estrelas" (Drummond de Andrade apud Barros, 2002: 18).

Dito isso, discorre sobre diferenças entre os dois poetas:

Um é poeta erudito, produto da cultura urbana e burguesia média; o outro, planta sertaneja vicejando à margem do cangaço, da seca e da pobreza.

Arrematando:

Aquele tinha livros admirados nas rodas sociais, e os salões o recebiam com flores. Este, espalhava seus versos em folhetos de cordel, de papel ordinário, com xilogravuras toscas, vendidos nas feiras a um público de alpercatas ou de pé no chão.

Fecha dizendo sobre Leandro:
... Não foi príncipe de poetas do asfalto, mas foi, no julgamento do povo, rei da poesia do sertão e do Brasil em estado puro.

Volta a pergunta para reflexão: o que é o nosso cânone literário e quem o elege?
Adiantemo-nos. O nosso primeiro poeta genuíno foi Gregório de Mattos, que popularizou a poesia na Bahia. Por longos anos, suas peças satíricas foram relegadas ao limbo, ao umbral, detrectadas, enquanto sua produção religiosa e lírica era estudada em longos serões e conferências. Mas, essa produção esbarra nos apócrifos e apógrafos reproduzidos em folhas soltas pelas esquinas da cidade de Salvador, o que lhes confere um caráter duvidoso. E isso não ofusca a pena do Boca do Inferno. O Boca de Brasa é poeta e, assim como Abraão, aquele patriarca hebreu, pai de dois filhos: Isaac, representando os escolhidos, o cânone, com uma seqüência que vai dos árcades aos concretistas e à vanguarda pós-moderna atual, e Ismael, representando os banidos, abrangendo todo um arsenal de poetas populares, desde Leandro Gomes de Barros até Azulão, despachando versos na Feira de São Cristóvão, no Rio de Janeiro.

2. Cordel e épica

Ao tomar a Prosopopéia, de Bento Teixeira, para o trabalho de comparação sobre épica, quisemos lançar olhares para essa característica da literatura de cordel. Durante seus primeiros tempos, a literatura brasileira, como toda e qualquer literatura colonial, foi a sombra da metrópole, da Europa. A literatura de cordel, também em formação, aproveitou-se de temas europeus. Daí porque as histórias de cavalaria e bravura irrigaram nossos folhetos. Citar uma ou outra, fazer levantamentos e catalogações seria redundante em nosso contexto, visto que outros já o fizeram com maior acuidade. E mesmo, é o óbvio. O certo é que, assim como o todo literário brasileiro, buscava-se uma identidade. Havia a forma, o conteúdo era ainda difuso. O encontro da literatura de cordel com o cangaço nordestino foi como o estabelecimento do caminho a ser seguido. O assunto, gerado a partir de problemas sócio-econômicos -e culturais, transformou-se no ponto decisivo da criação de uma identidade literária. O ciclo épico dos cangaceiros na literatura de cordel é o marco divisório. O Nordeste começou a falar de si e a buscar seus heróis, encontrando nos cangaceiros seus representantes na luta contra a injustiça social. Observa Mark Curran:

No cordel, o cangaceiro é o herói por excelência, misto de bandido, criminoso e lutador pela justiça no sertão nordestino. Nas obras cordelianas contemporâneas, é visto como o tipo heróico legítimo, maior do que a vida, verdadeiro "cavaleiro do sertão", com as cintas repletas de balas, o rifle "papo-amarelo", o revólver e o facão. É conhecido pelos epítetos: Rei do Cangaço, Rei do Sertão, Terror do Nordeste, Rifle de Ouro, Leão do Norte, Mestre da Morte e, no caso do célebre Lampião, Galo Cego (Curran 2001: 61).

Reiteramos que esse encontro ofereceu à literatura de cordel o seu herói. Franklin Távora, em 1876, apresentava, sob o nome de Literatura do Norte, um volume, um romance histórico, cujo herói era um desses: o Cabeleira. Um precursor, talvez. Távora afirma que

... o protagonista da presente narrativa, o qual se celebrizou na carreira do crime, menos por maldade natural, do que pela crassa ignorância... Autorizavam-nos a formar este juízo do Cabeleira a tradição oral, os versos dos trovadores e algumas linhas da história que trouxeram seu nome aos nossos dias envolto em uma grande lição (Távora, 1973: 31).

O apelo popular e seus versos, ao que parece, já tentavam construir uma identidade, pautada na ausência de justiça. Como nos revela o Major Optato Gueiros, da Polícia de Pernambuco, oficial responsável por combater e perseguir cangaceiros: "Dentre as causas propulsoras da evolução do banditismo, não resta a menor dúvida, que figura em primeiro plano a injustiça" (Luna, 1972: 23).
E como salienta Luis da Câmara Cascudo:

O sertanejo não admira o criminoso, mas o homem valente (...) Para que a valentia justifique ainda melhor a aura popular na poética é preciso a existência do fator moral. Todos os cangaceiros são dados inicialmente como vítimas da injustiça. Seus pais foram mortos e a justiça não puniu os responsáveis. A não-existência desse elemento arreda da popularidade o nome do valente. Seria um criminoso sem simpatia.
O sertão indistingue o cangaceiro do homem valente (Cascudo, 1984: 160-61).

Ou mesmo a revolta de Zé da Luz:

Na Capitá Federá,
Tenho visto brasilêro
Dizê que o sertão só dá
Assarcino e cangacêro!

Cangacêro e assarcino!...
- O qui faltou no sertão
Foi livro prá Antonho Silvino,
Justiça prá Lampião! (Luz, s/d: 1949)

Claro que o nosso trabalho não quer justificar o cangaço, tampouco estudá-lo em minúcia, mas tão-somente situá-lo, numa preparação ao encontro com aquele que marcará definitivamente a história da Literatura de Cordel e do Nordeste, tornando-se um ícone indelével.
Desde aquele Cabeleira, outros foram se destacando neste tipo de empreitada: a formação do cangaço. Luis Luna apresenta-nos um rosário de cangaceiros:

Zé Pereira, Antonio Silvino, Casemiro Honório, os irmãos Porcino, Antonio Quelé, os chefes mais importantes do cangaço... Essa chuva caiu quando Virgulino Ferreira da Silva mal entrava na adolescência, aos 17 anos de idade (Luna, 1972: 24-25).

Leandro Gomes de Barros dedicou boa parte de seus folhetos ao cangaceiro Antonio Silvino. Certamente, se tivesse sido contemporâneo de Lampião, a produção cordeliana sobre o Rei do Cangaço teria triplicado sua importância.
Abramos um pequeno espaço para uma indicação, pela qual acreditamos poder desfazer um equívoco. Muitos estudiosos confundem a poesia dos cantadores repentistas nordestinos com a Literatura de Cordel. É certo que sejam irmãs. E como todos os irmãos, sejam, também, diferentes. Os poetas cordelistas raramente são repentistas ou glosadores. São poetas da letra, conhecidos como poetas de bancada, sofrendo inclusive algum preconceito por parte daqueles. O repente é obra de momento, é construção oral cuja maior característica é ser efêmero, fruto do improviso. Por isso são famosos os desafios e pelejas, nos quais dois cantadores se debatem em criações e trava-línguas, em perguntas e respostas. O Cego Aderaldo gabava-se de nunca ter repetido um verso. Nenhum cantador que se preze escreverá seus versos para depois os decorar, cantando-os memorizados. Cantar com versos decorados é uma desfeita, uma aberração causadora de constrangimentos e agressões. O verso cordeliano, ao contrário, é fruto do trabalho, da elaboração. É o mesmo trabalho beneditino da Profissão de Fé de Olavo Bilac (Bilac, 1940: 5-10).
Os equívocos e maus olhares com que a Literatura de Cordel foi observada por muito tempo precisam urgentemente de revisão. Se, para Antonio Candido, a existência de uma "literatura propriamente dita" requer alguns denominadores:

... a existência de um conjunto de produtores literários, mais ou menos conscientes do seu papel; um conjunto de receptores, formando os diferentes tipos de público, sem os quais a obra não vive; um mecanismo transmissor, (de modo geral, uma linguagem, traduzida em estilos), que liga uns a outros. O conjunto dos três elementos dá lugar a um tipo de comunicação inter-humana, a literatura, que aparece sob este ângulo como sistema simbólico, por meio do qual as veleidades mais profundas do indivíduo se transformam em elementos de contacto entre os homens, e de interpretação das diferentes esferas da realidade (Candido, 1997: 23).

A produção cordeliana cumpre os pressupostos. É literatura. E mais: pela importância superior na construção identitária de um povo, não pode mais ficar de fora dos estudos sobre formação da literatura brasileira, nem ser um mero artigo, parente do artesanato. Repetimos Sílvio Romero:

Se vocês querem poesia, mas poesia de verdade, entrem no povo (...)
Poesia é no povo. Poesia para mim é água em que se refresca a alma e esses versinhos que por aí andam, muito medidos, podem ser água, mas de chafariz, para banhos mornos em bacia, com sabonete inglês e esponja. Eu, para mim, quero águas fartas - rio que corra ou mar que estronde. Bacia é para gente mimosa e eu sou caboclo, filho da natureza, criado ao sol (Romero apud Mota, 1987: 25).

3. Finalmentes

As invasões e descobrimentos foram revelando epopéias nacionais pelo mundo: o Mahabarata, na Índia; a saga de Átila e Os Nibelungos germânicos; os Edda nórdicos. O descobrimento português sepultou nossas epopéias. Não as cantamos, pois não as conhecemos. O surgimento da literatura de cordel, todavia, ofereceu-nos uma segunda chance. Os temas cantados por ela, em seus princípios, eram temas ibéricos. Versões populares para os poemas épicos franceses e espanhóis. Mas essa mesma busca de identidade, que moveu escritores cultos, levou-a a cantar (ou contar) fatos sociais recentes, transformando-se numa espécie de imprensa sertaneja. Foi o período de estabelecimento de seus alicerces formais.
Um trabalho que pense a relação entre as epopéias nacionais e a Literatura de Cordel seria o fruto dessa breve conclusão. Ao propormos um olhar mais aguçado e menos preconceituoso para o cordel nordestino, referimo-nos ao fato de que todas as tentativas de escrever uma epopéia nacional tenham sido, de certa forma, ou de forma certa, infrutíferas. Enquanto isso, com toda sua fragilidade, de base popular, sofrendo perseguições e sendo ignorada, a Literatura de Cordel resistiu, fundou sua própria poética, consagrou poetas, penetrou em todas as camadas sociais, influenciou escritores e estudiosos, transformou-se num símbolo, ícone, índice, signo e sinal de uma Nação e, ao encontrar a matéria épica dos cangaceiros, em particular o épico maior, Lampião, estabeleceu-se definitivamente como veículo portador de nossa verdadeira identidade. Literatura de cordel como tal, só acontece no Brasil. Perguntamos, em última instância: Quando exumaremos os nossos mortos para dar-lhes destinos decentes? Servir-nos-ia a voz do último cantor épico Marcus Accioly (Accioly, 2001: 101):

Ah pudesse eu cantar os teus heróis
(uns poucos que conheço em meu país)
os de rifles lixados pelos sóis
(de alpercatas-de-sola sem verniz
sobre o couro curtido) os dos aiós
da vida (há trinta anos por um triz
da morte) e cartucheiras de cangaço
em cruz no peito (as tais cangas-de-aço)

vivendo cada dia o mesmo risco
de cada noite (o tempo com um baralho
cortado ao meio em lances de perigo)
ó tarô da existência (ó jogo falho)
ah pudesse eu cantar Lusbel-Corisco
(Diabo-Louro) "uns sapatos do caralho"
(como diria Márquez) Lampião
com seu olho (à Camões) vendo o Sertão

(sim) pudesse em cordel cantar (...)
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Bibliografia
ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 3 ed. Rio de Janeiro: José Olympio; Recife: FUNDARPE, 1986.
__________. Latinoamérica. Rio de Janeiro: Topbooks/Biblioteca Nacional, 2001.
BARROS, Leandro Gomes. No reino da poesia sertaneja. Org. Irani Medeiros. João Pessoa: Idéia, 2002. (Boi Misterioso)
CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. Vol. 1. 8 ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1997. (Reconquista do Brasil, 2ª série, V. 177)
CARVALHO, Ronald. Pequena história da literatura brasileira. 13 ed. Belo Horizonte: Itatiaia; Brasília: INL, Fundação Nacional Pró-Memória, 1984. (Biblioteca brasileira de literatura, V. 4)
CASTELO, José Aderaldo. A literatura brasileira: origens e unidade. Vol. 1. São Paulo: EDUSP, 1999.
CASCUDO, Luís da Câmara. Vaqueiros e cantadores. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1984. (Reconquista do Brasil, nova série, V. 81)
__________. Cantadores. 6 ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1987. (Obras folclóricas de Leonardo Mota, V. 1)
CURRAN, Mark. História do Brasil em cordel. 2 ed. São Paulo: EDUSP, 2001.
LITERATURA POPULAR EM VERSO. Estudos. Tomo I. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 1973. (Coleção de textos da Língua Portuguesa moderna)
LUNA, Luiz. Lampião e seus cabras. Rio de Janeiro: Livros do Mundo Inteiro, 1972.
LUYTEN, Joseph M. A notícia na literatura de cordel. São Paulo: estação Liberdade, 1992.
__________. O que é literatura popular. 2 ed. Sã o Paulo: Brasiliense, 1984. (Primeiros passos, V. 98)
LUZ, Zé da. Brasil caboclo. 6 ed. João Pessoa: Acauã, s.d.
ROMERO, Silvio. Estudos sobre a poesia popular do Brasil. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 1977. (Dimensões do Brasil).
__________. História da literatura brasileira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980. Vol. 2, 3 e 4.
SILVA, Anazildo Vasconcelos da. Semiotização literária do discurso. Rio de Janeiro: Elo, 1984.
VICENTE, Zé. Combate e morte de "Lampião". In: Zé Vicente: poeta popular paraense. São Paulo: Hedra, 2000. (Biblioteca de Cordel).
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Aderaldo Luciano Mestre em Ciência da Literatura e pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Postado em:
http://www.apropucsp.org.br/apropuc/index.php/revista-cultura-critica/31-edicao-no06/252-literatura-de-cordel-literatura-brasileira

sábado, 23 de abril de 2011

Mistérios e proezas do Cordel.

Foto (única)
Avó: Maria Francisca da Silva, (Sá Maria)
Nascida em:
Macaúbas, Bahia, em 15 de maio de 1905,
Filha de: João Pereira da Silva e Maria Francisca da Silva.
Casada com: Manoel Gonçalves de Araujo,
Nascido em: Remédios, Bahia, em 19 de fevereiro de 1891,
Filho de: José Joaquim de Oliveira e Maria Rosa da Luz. (Bisavós)
Filhos de Sá Maria: Eliza, Maria Francisca (Dodó), Antonio, José, Ana, Joaquim, Otávio e Auzelita.
Vivos somente: Ana e Otávio.
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Depoimento do neto Josué Gonçalves de Araujo, escritor cordelista da Editora Luzeiro:
Sá Maria
, assim era conhecida a minha avó Maria Francisca da Silva. Teve papel relevante na minha vida literária e provavelmente no meu destino. Foi ela quem, numa noite de lua luminosa, quando ainda não havia energia na cidadela, contou a primeira história de Cordel para nós, que embevecidos, sentados no chão do terreiro, ouvia em silêncio. Acredito que só eu tenha gravado profundamente na alma, as emoções daquele instante mágico. Garoto de apenas 6 anos de idade, não conseguiu dormir naquela noite sonhando com todo aquele cenário de gigantes e heróis valentes e um linguajar estranho – em versos. Hoje sou um escritor cordelista da tradicional Editora Luzeiro Ltda, de onde saiu a história que ela nos contou: "A história do valente João Acaba-mundo e a serpente negra" de Minelvino Francisco da Silva que, coincidentemente residia em Itabuna-BA, onde morava uma filha da minha Avó. Todas as outras histórias contadas por ela estão lá nos livretos, alguns com páginas acidificadas ou manchadas pela ação do tempo, na editora.
Vale lembrar que a minha Avó era analfabeta, mas de tanto ouvir desde criança, as histórias dos livretos de cordel, ela tinha decorado tudo na memória. Influenciada por ela ou provocado pela magia do cordel que ela recitava em versos, passei a amar os livros e me tornar um escritor de cordel. Na primeira história do cordel eu encontrei um portal para um mundo virtual, onde tudo era possível. Onde eu teria ou poderia ser tudo o que não era no mundo real, da seca, da miséria, dos espinhos das lavouras em tempos de colheitas, dos sacrilégios da vida de bóia-fria no Pontal do Paranapanema. Assim era a força desse gênero da literatura em versos e rimas que alfabetizou muito nordestino que ansiava pelo saber. Os cientistas dizem que: “... a natureza sempre dá um jeitinho”, bem assim foi o nordestino diante das dificuldades da sobrevivência: sempre encontrou um beco, um atalho, uma trilha, um jeitinho, pois, de onde deveria vir o suprimento das necessidades básicas, não vinham nunca. Escola e recursos sociais e culturais, o governo, os políticos e os coronéis negligenciavam por conveniência.
O Cordel cumpriu o seu papel. Uma literatura em linguagem fácil, metrificada, rimada, versificada de fácil assimilação pelo povo nordestino do sertão carente dos recursos do conhecimento cultural das grandes cidades. Os escritores cordelistas da geração atual, luta pelo reconhecimento da supremacia desse gênero literário, que sempre ficou a margem da elite da literatura dita erudita, oficial, em razão do preconceito?
Sou eternamente grato a minha avó Sá Maria. Inspirado nela eu escrevi o meu primeiro romance em prosa com 187 páginas: “O mistério da Bruxa de Areia Dourada” onde a personagem "Nhá Maria" é a grande guerreira até depois de sua morte. Um dia vou transformá-lo em cordel. Esse romance deverá aparecer mais com o diferencial, “Em Cordel”.
Ainda sobre essa guerreira:
Sá Maria ganhou do seu padrinho, uma bezerra que ainda estava na barriga da mãe. Com essa bezerra ela fez uma boiada. Os bois foram criados soltos nas caatingas do sertão sem cercas de arame farpado e perambulavam pelo terreiro da casa como se fossem cachorros ou porcos domésticos. Quando os filhos de Sá Maria se largaram no mundo, engrossando as filas dos migrantes da seca, ela vendeu a boiada e partiu para o oeste do estado de São Paulo a busca dos filhos. Comprou uma casa com um grande quintal cercado de balaustres de madeira, bem na cidadezinha de Mirante do Paranapanema. Criou galinhas, cultivou uma horta e era a melhor saboeira da cidade. Fazia o melhor sabão de sebo e soda. Vendia as suas verduras, os frangos e o sabão para os moradores e para as mulheres do bordel, na periferia da cidade. Sá Maria, minha avó sempre foi auto-suficiente. Ela, não lia com os olhos, não escrevia com as mãos, mas usou os ouvidos para assimilar aquela forma de literatura, única fonte de cultura e conhecimento, possível. Dessa forma se tornou a minha primeira professora de literatura popular (oral), quando eu ainda não sabia ler e nem escrever.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Minhas poesias

Despedida do Poeta
Josué G. Araujo

Não repetiriam tal imprudência,
Dante, Dumas e Shakspeare.
Tudo se perde na dormência.

Romeu e Julieta, A Dama das Camélias,
E a Divina Comédia...
Outro Teatro? Talvez.
Para onde vamos? Quem sabe?
Justa causa irrevogavelmente.

O que se fecha é a porta.
Razões? Não importa.
A demissão é imperdoável.
Todos fracassam em cena.
O final é sempre um litígio,
As lágrimas não compram
Valor e prestígio.

Vivendo e vendendo ilusão,
Imperfeitos, tal qual, marionetes,
Artistas naturalmente sem opção,
No palco do mundo somos interpretes.

A vida é um drama em eterna atuação.
A direção, só a saudade conhece.
O coração voa nas asas da imaginação,
Descerrando as cortinas da mente.
Fecham-se as janelas da alma.

Josué de Nazaré e o Cordel: Minha vida cordelista

Josué de Nazaré e o Cordel: Minha vida cordelista: "O meu nome é Josué.Sou filho de nordestino,Escrever é o meu prazer.Foi assim desde menino.Minha avó sempre dizia:Se tu amas a poesia,Trovado..."

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Aderaldo Luciano - Dr. em literatura da o seu Feliz Natal aos cordelistas


Olá, meus amigos do cordel, queria agradecer a todos vocês pelo carinho e pela paciência comigo nesse ano de lutas em prol de nossa arte. Estamos na história, fazemos a história e nela nos perpetuaremos. O cordel é maior do que nós. Neste Natal nasça a nossa vontade de nos organizarmos nacionalmente de maneira firme para alcançarmos voz mais alta e consolidada.
Estive à frente, nesse ano, do editorial da Luzeiro. Como em tudo na vida, com Varneci e Gregório, acertamos e erramos. Aos erros, buscamos a correção, aos acertos, a avaliação.
A todos vocês meu abraço, sempre!
Feliz Natal, Ano Novo de vitórias e que venha o Carnaval.
-- Aderaldo LucianoTelefones:Rio de Janeiro:(21)24575525 (res.)(21)88864247 (cel. Oi)(21)83426640 (cel. TIM)
São Paulo:(11)25781387 (editora)(11)62344789 (cel. Oi)
http://adercego.blogsome.comhttp://www.poesiahoje.com/http://www.editoraluzeiro.com.br/

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Inferno sem pavor (Josué G. de Araujo)

Devo a vida ao instinto
Nessa tal sobrevivência!
É assim que todo dia,
Sobrevivo à existência.
O instinto é quem me salva,
Despertando-me na alva.
Ter a alma de escritor
É entregar-se no deslumbre,
Com a paz só de vislumbre
Num inferno sem pavor.

O tédio é sufocante
E a poesia é salvadora
— Colírio paliativo! —
Grande amiga animadora.
Mas o barco majestoso
Nas águas do mar colosso,
Deriva sem horizonte,
Com bússola sem ponteiro
E o leme sem marinheiro.
O céu parece defronte!

No espelho a imagem,
É você se avelhantando.
Naquele corpo estranho,
Matéria sempre oxidando
E o disparate da vida,
A dor na alma sentida,
É que o corpo envelhece,
Mas a eterna criança
Conserva a esperança,
Vivendo, não se esmorece.

Em total catalepsia,
Com sua plena consciência,
Olhando pelas janelas
Diante dessa incoerência,
A figura envelhecida,
No espelho, desvanecida,
Insiste em ser você.
E o espírito imortal,
Permanece jovial,
Escravo, sempre a mercê.

As pessoas ao redor
Augurando como corvo,
Querem livrar do entulho,
Do improfícuo estorvo.
O espírito amordaçado
Oculto e agrilhoado,
Num paradoxo da vida:
Se, lá dentro ele evolui,
La fora o corpo dilui
Corrompendo a guarida.

No interior da carcaça
Um sábio em letargia
Tem que dormir acordado
Pra cumprir a profecia.
Sufocando seu desejo,
Vivendo só de sobejo,
Engolindo muito sapo,
Achando na solidão
Abrigo e proteção,
Sentindo-se como trapo.

Nessa furna de dois olhos
Contemplando a beleza,
Se cumpre a penitência,
A sanção da natureza:
Medida de repressão,
Visando a evolução,
Da sua própria essência,
Uma questão do espírito
Que lhe parece esquisito,
Sem você ter consciência!

Mesmo assim, você deseja
Tudo o que não pode ter.
Seus sonhos são impossíveis,
E você tenta esquecer!
Lá dentro, puro sadismo,
Lá fora, só masoquismo.
O belo fica mais belo
E a beleza é negada.
A velhice é descartada,
Para um mundo paralelo.

É realmente sufocante
O tédio da existência.
O espírito é cruel,
A vida é incoerência,
Uma absurda imposição,
Com arbítrio por opção:
— Ou a vida ou a morte —
Se a vida, pegue a enxada
E, se a morte, resta à espada.
É um jogo de esporte.

As águas correm pro mar
Por força da natureza.
Nada impede o seu caminho,
Não importa a profundeza.
Voando em nuvens no céu,
Correndo na terra ao léu
Adentrando pelas veias,
Nas artérias da terra,
Pelas estrias da serra,
Descendo sem quaisquer peias.

O planeta deflorado,
Conseqüência do progresso,
Pra salvar a humanidade
É o que diz qualquer congresso.
Quando a terra se queimar
E o verde se acabar,
Tudo estará terminado,
Vamos ser anjos sem asas,
Viver no inferno sem casas,
Com o Diabo malvado.

Extinção lá no inferno,
Esse risco, ninguém corre.
O céu já foi destruído
Por culpa de um grande porre:
Quando os anjos rebelados
Foram então engabelados,
Pela farsa da ambição,
O céu foi todo manchado.
O Diabo já alertado,
Cuidou da preservação.

Miríades exiladas
Do seio da divindade,
São sementes no astral
Que nascem na humanidade.
Infiltram-se na matéria,
Ocultando-se na artéria
Do humano sem juízo.
Usando desse instrumento,
Através do nascimento,
Retornar ao paraíso.

Toda manhã, de manhã
Embora o céu bem sereno
Sempre creio que o dia
Será de sol mais ameno.
Mas se pinta um temporal
Como guerra angelical,
E a procela brame forte
Temo que um raio certeiro
Atinja meu corpo inteiro
Rezo então, para ter sorte.

domingo, 29 de agosto de 2010

Apagando as Pegadas - Contos & Crônicas - Josué G. de Araujo antes do Cordel

Prefácio

Devo levar a vida como uma formiguinha?
Rua Barão de Itapetininga, Centro, São Paulo; manhã de junho. Eu, no centro da maior cidade do Brasil. Todas as manhãs, passo por essa rua, aproximadamente às sete e meia da manhã, para o meu “petit déjeuner”, antes de chegar ao escritório, e me deparo com crianças dormindo sob uma abertura próxima a uma galeria chamada Califórnia.
São crianças de todas as idades, raças e cores; algumas são muito bonitas; mas, de alguma forma, preferem os perigos das ruas e dispensam a proteção dos pais (com quem o risco é maior). Outras perderam os pais. As FEBEM’s, proteção do governo? Não. Melhor ficar nas ruas.
Como ficar indiferente? Como entender? Nas escolas não me ensinaram nada sobre tudo isso.Se fôssemos formigas, tudo seria mais fácil; as formigas não precisam questionar nada, só pensam no trabalho e na perpetuação da espécie. Nada mais. Devo viver como uma formiguinha? Não tenho certeza se vivo de forma diferente de uma formiguinha. O que realmente eu faço para além de mim mesmo? O que é possível fazer? O que eu sei fazer? O que um poeta pode fazer?Um poeta faz o que lhe impõe a inspiração oriunda das musas, do espírito da divindade; a missão do poeta é transmitir à sua espécie humana as mensagens recebidas. Tudo é escrito
Nas páginas da alma, que por sua vez, transpira para as páginas da consciência e, finalmente, exterioriza através dos símbolos da linguagem escrita ou verbal. É desta forma que um poeta, um escritor, um músico, todos os representantes do mundo da Arte, recebem as suas inspirações, que são sempre mensagens de: conhecimento, alegria, rudimentos básicos de orientação para a elevação da alma humana e desenvolvimento intelectual, viabilizando a evolução espiritual.O que mais, além da evolução espiritual, poderia interessar aos deuses, no que concerne à espécie dos seres humanos? As mensagens não pertencem ao poeta, ao escritor, ao artista, enfim, não são direcionadas, exclusivamente, para o instrumento físico usado para a recepção; as mensagens são úteis para aqueles que têm a sensibilidade de percebê-las e fixá-las na própria consciência. Os poetas e todos os transmissores dessas mensagens são, coercivamente, usados pelos deuses. A recompensa dos poetas é o prazer de receber em primeira mão as mensagens impressas diretamente na alma; o toque místico dos dedos das mãos divinas nas linhas da sua alma provoca êxtase; orgasmo mental ao cérebro. Aqueles que as recebem em segunda mão, as mensagens já transformadas em símbolos gráficos ou oral, sentem um prazer mais abrandado, pois o cérebro é quem recebe em primazia e, em seguida, transfere à alma; ao contrário do poeta, as inspirações primam pela alma, objetivando alcançar o cérebro. Não sei quais os critérios usados pelos deuses na escolha dos poetas, no entanto, sei que escolhas erradas podem provocar danos à mente humana; só os verdadeiros poetas têm a faculdade de discernir os códigos das mensagens, com veracidade. Um dom é uma dádiva divina que exige desenvolvimento com desvelo e usufruto impessoal.

Livro lançado pela Editora Caravansarai do Rio de Janeiro: http://www.caravansarai.com.br/
Apagando as Pegadas - Contos e Crônicas - 100 páginas.
O primeiro livro foi um romance de 187 páginas - edição independente - "O Mistério da Bruxa de Areia Dourada".
Atualmente tenho lançado livretos em cordel pela editora Luzeiro em São Paulo. "O Coronel Avarento" - 32 páginas em versos - "O Mistério da Pele da Novilha" - 32 páginas em versos.
Encontrei-me no cordel. Dificil agora é pensar em prosa para escrever. O cordel dinamizou a minha vida literária.
Josué


sábado, 28 de fevereiro de 2009

Contos do livro "Apagando as Pegadas"


"Apagando as pegadas" - (primeiro conto)

Numa tarde nebulosa de inverno, um ônibus vence o nevoeiro e estaciona na rodoviária da pequena cidade de Areia Dourada. Um passageiro com passos curtos e pesados desembarca. Negro de estatura alta, trajando um terno cinza e na cabeça um chapéu de feltro de abas curtas que protegia os olhos da neblina gelada. Apoiando-se numa bengala com uma das mãos, usou a outra para retirar um lenço branco do bolso do paletó. Olhou na direção do ponto de táxi à sua frente, franzindo as rugas do sobrolho. Pressionou lentamente o lenço na testa, enquanto fechava os olhos para o presente, esquadrinhando as imagens do passado.
“Rememora a cidade com suas ruas de terra e muitas crianças brincando sob olhares alegres dos pais, nas portas e nas janelas das casas em madeira; lavradores com carroças e peões montados em cavalos numa rotina campestre; o ponto de charretes em frente...” Abre os olhos e se vê ali, no mesmo cenário do passado, mas em outra dimensão do tempo.
O lenço deslizou pelas faces enxugando as gotículas da neblina, acentuando o brilho da pele lisa e sedosa, que resistiu às hostilidades do tempo por mais de setenta invernos, revelando a superioridade da pigmentação que forma a tez escura.
O motorista solícito abriu a porta do táxi: – Permita-me uma observação, mas o senhor é o primeiro passageiro que se refere a essa praça pelo seu antigo nome. - O táxi partiu rodando sobre o asfalto em direção ao sul da cidade, e o passageiro sentiu a aragem fria gelar a sua pela. Outrora os cascos de um cavalo estariam batendo na terra seca e uma charrete de capota conversível deslizando suavemente, com visão ampla permitindo o vento irreverente soprar-lhe, suavemente, as faces.
- Está me dizendo que não existe mais a Praça Erva de Passarinho, meu jovem?
- A praça é a mesma, senhor, mas, quando eu nasci, ela já havia mudado de nome.
- Quantos anos têm?
- Dezenove anos, senhor.
- Dezenove anos! – O passageiro voltou a mergulhar em suas recordações - era a sua idade quando partiu dessa cidade. Faz muito tempo... Mais de meio século e, ainda ignorando as regras do tempo, o passado insiste em se manter vivo, como sombra embotando o presente. Usa-o como hospedeiro, semelhante a uma orquídea que vive parasitando no tronco de alguma árvore. Lembranças fortes que não se apagam na memória; lembranças imortais? O rastro do tempo permanece na memória; um rastro com pegadas tão profundas que nem mesmo a areia soprada pelas tempestades, durante meio século, conseguiu cobri-las. Quiçá, retornando ao ponto de partida, pisando em cada pegada, possa transformá-las em novas pegadas, menos profundas, tão rasas que a areia do tempo poderá apagá-las!
- Chegamos, senhor! Essa é a antiga Praça Erva de Passarinho.
Uma antiga pracinha, com plantas arbustivas, transformada pelo tempo em uma floresta de gigantescas arvores e palmeiras, que espanam as nuvens do céu com suas folhas. Casais de adolescentes poderiam se ocultar em suas entranhas e namorar, dispensando as regras do antigo romantismo. O táxi foi dispensado e com mais alguns passos, eis que surge, no centro da praça, o marco inicial da sua jornada. O lugar é o mesmo, mas a madeira do banco foi transformada em mármore. Sentou-se, pesadamente. Saudades, nostalgia, emoções e lembranças vivas afloraram aos turbilhões das vísceras do cérebro, atingindo as fibras do coração, semelhantes a descargas de eletricidades atmosféricas. A bengala rolou do assento do banco; o chapéu foi retirado, exibindo a abóbada craniana revestida, externamente, por um tapete de lãs de algodão, branquinhas, branquinhas...
Seria ilusão acreditar que tudo continua existindo em nós, porque o cérebro registra os efetivos eventos do tempo, nas páginas da memória? A memória é a estrada do passado e as pegadas são as lembranças. O coração resistiu a todas as batalhas, porque, como um guerreiro, empunhou a sua espada com a inabalável esperança de vencê-las. A roda da vida completou mais um círculo. A mão negra sem manchas apertou o peito para acalmar a procela do coração. As lágrimas que se mesclavam com as gotículas da neblina eram enxugadas com o lenço branco. Além dos limites da praça, o nevoeiro não permitia a visibilidade. Uma figura feminina com a espinha dorsal curvada pelo avançado do tempo empunhava a sua bengala, rompendo o nevoeiro em direção ao centro da praça.
Apoiou-se na bengala para sentar na outra ponta do banco com extremo esforço. A bengala escapou-lhe das mãos, rolando para se juntar a outra. Um tempinho para respirar e recompor-se, antes de cumprimentar, com muita suavidade na voz, o eventual parceiro de banco. A simpática personagem tinha as faces esborrifadas com pintas escuras, realçando a tristeza dos olhos emboscados por vultosas espirais de rugas, espelhando a medida do tempo. Cabelos ralos tingidos na cor castanha em sintonia com o tom avermelhado dos seus lábios finos.
- Conheço todas as pessoas dessa cidade, mas não me lembro do senhor. A poeira do tempo embota a memória da gente e...
- Sou um forasteiro que retornou ao cenário do passado para varrer as suas pegadas.
- Não se apaga o próprio rastro, se continuas a caminhar!
O velho ergueu o olhar para os céus, jazendo em silêncio como se buscasse um alento para responder a essa questão, mas a delicada velhinha quebrou o silêncio. – Conte-me sua história, afinal, somos parceiros da mesma estrada.
Tomado de súbito, procurou refletir rápido – “contar a minha vida para uma estranha?” - Mas a essa altura, não faria nenhum sentido temer a exposição da sua vida. No final da estrada, o que resta para temer é o incógnito da passagem dos portais.
- Vou lhe contar a minha história, cara senhora – respirou fundo e começou a falar com voz rouca. – Apaixonei-me na adolescência por uma garota de pele branca; tão branca como a neve. Era final da década de quarenta e eu era um novo morador da cidade. No primeiro dia na escola, topei com uma garota. Topei mesmo! Estava correndo para ir ao banheiro do outro lado do pátio e inesperadamente esbarrei-me nela; voaram cadernos e livros para todos os lados. Ficamos agachados por segundos eternos; olhos nos olhos, e mais tarde descobrimos que éramos colegas de classe. A professora pediu para formarmos grupos de dois e, para surpresa minha, ela escolheu-me... eu sabia que, do contrário, ficaria sobrando. Ninguém iria se interessar em ser parceiro de um forasteiro negro. Durante um longo período, só ela se comunicava comigo. Mantivemos estreita amizade durante um ano, mas estava difícil conservar molhado o pavio daquela bomba. Estudávamos e fazíamos trabalhos escolares juntos, inclusive na casa dela. Aqueles eram tempos difíceis para tudo o que se referia a relacionamentos de homem e mulher. Moças virgens só saiam de suas casas acompanhadas por parentes ou por damas de companhia. Uma tarde eu proseava com duas colegas da escola, aqui mesmo, nesse banco, e de repente, as garotas se levantaram e se despediram. Logo entendi a pressa das colegas. A minha paixão platônica estava chegando da escola de datilografia, sem a habitual dama de companhia.
- O que elas queriam? Por que esse repentino interesse por você? Agora passaram a fazer-lhe a corte? Qual a intenção de todo esse assédio, por parte delas? Sabia que elas se referem a você como “o deus grego bronzeado pelo sol da manhã”?
Enquanto ela tomava fôlego, usei de um pouco de audácia: - Você está com ciúme?
- Eu? Com ciúme de você? – ela baixou os olhos. - Estou sim.
- Por quê?
- Oras, por quê! Por quê! Por quê? Eu estou apaixonada por você, há bastante tempo, se você não percebeu ainda, é porque é um cego – ela esfregou as faces com as mãos, com certo nervosismo.
- Então somos os dois cegos, meu amor! Eu amo você há muito mais tempo. Eu a amo desde aquele nosso esbarrão, providencial, no pátio da escola – enquanto me declarava, ela permanecia muda com o olhar fixo nos meus, até que aconteceu o nosso primeiro e único beijo. Ela sorria e chorava, simultaneamente, enxugando as lágrimas com as costas das mãos trêmulas pela emoção. Eu temia que tudo não passasse de um maravilhoso sonho, e foi ela mesma quem deu o alerta da realidade.
- Meu querido! E agora? Os meus pais jamais permitirão o nosso amor!
O simples pensamento de perdê-la deixava-me em pânico; e eu tinha todos os motivos do mundo para me apavorar: um negro pobre apaixonado por uma garota branca, filha de um rico fazendeiro, cuja esposa, bela e elegante, sonhava com badalações e frivolidades das rodas sociais, em alguma metrópole. Aventamos a possibilidade de uma fuga; fugirmos para bem longe, mas reconhecemos que essa idéia louca não era viável, pois eu não possuía recursos para executá-la. Longe dessas preocupações, a vida se tornava, a cada dia, vibrante e bela em demasia. O fotógrafo do jardim registrou um dos nossos momentos, sentados no banco de mãos dadas. Ela se apossou da foto como se fosse uma relíquia.
Guardamos o nosso amor com todo zelo, por um ano, mas o destino tem as suas regras e limites de tempo para cada lance no jogo da vida. Recebi uma carta dela relatando a violação da sua privacidade pela mãe. Enquanto dormia, esta lera todo o seu diário, tomando conhecimento de toda a história do nosso amor. A mãe relatou tudo ao marido e ambos ficaram tão chocados que providenciaram, imediatamente, a venda de tudo que possuíam na região. Iriam se mudar para outro estado, onde eram proprietários de outras fazendas. Nos trechos da carta, percebia-se toda a sua agonia: “Meu amor, foi horrível! Não vejo salvação para o nosso amor. Estou desesperançada e injuriada. Eles bradaram aos quatro cantos do mundo as suas falsas e vergonhosas verdades, como argumentos para justificar a rejeição do nosso amor. Não tiveram o mínimo respeito pelos meus sentimentos – vejam essas palavras horríveis, pronunciadas pelo meu pai: ‘Você não pensou que eu conceberia a idéia de aceitar um genro que, além de não ter onde cair morto, é um negro? Eu jamais terei um bastardo mulato como neto. A pobreza é uma mancha escura na pele que pode ser dourada com o brilho do ouro, mas a negritude do sangue é incurável.’ Decidiram que eu vou à Capital com a minha mãe para tratar do meu futuro – casar com o filho do meu padrinho, um rapaz que eu não suporto.”
Ao término da leitura, chorei como criança, sentindo-me impotente e acuado como uma fera enjaulada. Blasfemei contra Deus por não ter previsto todos os sofrimentos oriundos dessa heterogeneidade de cores da pele, de raça, de níveis sociais, dessas diferenças criadas pela incongruência humana. No dia seguinte soube que ela estava na rodoviária acompanhada da mãe, prontas para embarcarem. Que desespero! Sai correndo alucinadamente pelas ruas na direção da rodoviária, chegando no momento em que o ônibus estava partindo. Corri gritando como um insano ao lado da janela, despojado de todos os meus brios: Lucineide... Lucineide, meu amor!
Ela colocou a cabeça para fora da janela e eu a vi em prantos. Jogou pela janela a metade da nossa foto, a parte em que ela aparecia. Fiquei com a foto nas mãos, vendo o ônibus desaparecer na poeira levantada do areão da estrada. Nunca mais me separei desse pedaço de foto. Algum tempo depois, os meus pais decidiram partir para a Capital de São Paulo, pois não suportavam mais assistir à minha tristeza. “Talvez em outra cidade ele possa esquecê-la e retomar a sua vida.” Esquecê-la foi a única coisa que eu jamais consegui. Formei-me em direito e montei o meu escritório. De dia o advogado e à noite o boêmio. Precisava alegrar a minha vida, mas logo entendi que a boemia é o refúgio dos espíritos atormentados pela solidão. Mais e mais solidão era o que eu encontrava todas as noites nos bares da noite. Livrei-me dessa vida estúrdia e passei a preencher o tempo estúpido da minha existência entre o trabalho, os livros, as meditações e a cama, onde dormir era morrer todas as noites, para renascer nas manhãs, sem ser consultado. O trabalho era a única atividade que me prendia ao presente; os livros eram naves que me transportavam para todo o universo, à velocidade do pensamento; as meditações me transladavam para o passado, e a cama era a morte em fragmentos. Mais de meio século improfícuo e eu decidi retornar pelo caminho das pegadas. Agora que estou aqui, não sei o que fazer.
A parceira do banco estava em lágrimas. Puxou o ar com esforço, como se aspirasse mais uma lufada adicional de vida, antes de começar a falar com voz nostálgica.
- Na minha adolescência, eu também renunciei a um grande amor; um amor impossível. Parti para bem longe e me casaria com outro, se ele não tivesse morrido antes do enlace matrimonial. Um jovem muito arrogante que, quando estava alcoolizado, se metia em brigas de botecos, onde puseram um fim à sua vida. A morte daquele que poderia ter sido o meu marido alertou-me para o verdadeiro significado da vida. Renunciei à minha família e voltei a essa cidade, na esperança de reencontrar o meu amor. Alguém me informou que o meu amado havia partido para algum lugar desconhecido. Nunca senti tamanha angústia na minha vida. Tornei-me professora na escola da cidade e durante todos os dias desses anos vim a esse banco, na esperança de encontrá-lo – a velhinha retirou da bolsa metade de uma foto amarelada pela ação do tempo e juntou a outra metade que estava nas mãos do seu parceiro ao lado. As lágrimas rolavam dos olhos e a emoção era avassalante para o seu velho coração.
- Eu sou a sua Lucineide, meu amor! José Mário, meu querido, eu sempre te amei, jamais te esqueci e sempre te esperei. Todos esses anos eu estive aqui... à sua... espera.
José Mário olhava as duas metades da foto, unidas, se completando na foto original. Duas lágrimas caíram, se espalhando sobre a foto. Voltou-se para a sua parceira ao lado, procurando o seu olhar. Reconheceu aqueles olhos amados e jamais esquecidos. Mentalmente fez uma oração: “Perdoe meu Deus, por ter sido um dia, um blasfemo. Obrigado por devolvê-la a mim, no momento de nossa partida final.”
Seus lábios se uniram levemente pela segunda e última vez. – Lucineide, meu amor, perdoe-me por tê-la feito esperar, tanto tempo.
- Não se preocupe querido, agora temos uma eternidade para ficarmos juntos. No céu os espíritos não têm cor, raça e desconhecem o brilho enganoso do ouro.
Lucineide encostou a cabeça no ombro de José Mário e fechou os olhos. Ele apertou o coração com a mão e encostou a sua cabeça sobre a cabeça dela.
Na manhã seguinte, o vigia do jardim encontrou-os na mesma posição, com os corpos orvalhados, e os raios do sol cintilando em cada gota de orvalho.

Josué Gonçalves de Araujo

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Crônica do livro - Apagando as pegadas

(Em 27 de outubro de 2002, aos 57 anos de idade, com quase 53 milhões de votos, Luiz Inácio Lula da Silva é eleito Presidente da República Federativa do Brasil. Esse artigo (abaixo) foi publicado no editorial do Jornal “Destaque News”, da região de Tietê, 13 dias depois).

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Help Tupy-Caetés (Josué G. de Araújo)

Quem nunca sonhou com a pátria amada, amada e cantada em coro, por todos os brasileiros?
“...Ó pátria amada, idolatrada, salve! Salve!”
São poucas as oportunidades para celebrar festas cívicas, ou extravasar sentimentos patrióticos. Mas, finalmente, estamos vivendo um momento oportuno. Algo novo aconteceu na política; não uma política nova, pois, sabemos que a política é mais velha que a própria humanidade. O primeiro ato político de que se tem notícia ocorreu quando da rebelião dos anjos, época em que ainda não havia sido gerado o primeiro filho na terra. O pavio da explosão demográfica não havia sido aceso. Um dos mais poderosos e inteligentes dos anjos, Lúcifer, liderou a terça parte dos soldados angelicais, objetivando destronar o Criador. Houve guerra, mas os anjos rebeldes foram derrotados e expulsos dos céus. A política, também, foi a causa do primeiro assassinato humano. Segundo a Bíblia, Caim matou Abel em uma disputa de influência, pois ambos queriam agradar a Deus. A existência de um ser humano é precedida por uma guerra de milhões de espermatozóides, na disputa por um óvulo. Após o nascimento, a política continua na luta pela sobrevivência; sobrevivência da própria vida, a qual, dela, nós não temos consciência de nada, nem mesmo se optamos por aceitá-la. Mas o fato é que, até sonhando, fazemos política. A política sempre foi usada como um instrumento do bem e do mal. Sonhamos com o que de melhor ela pode nos proporcionar, mas o fato de a maioria dos nossos sonhos se transformarem em pesadelos não nos impede de continuar sonhando. Conclusão, os ares do Brasil, com o oxigênio renovado, fizeram-me sonhar novamente: noite escura e a selva em silêncio; ao redor das fogueiras, concentravam-se os brasilíndios, cansados e céticos; de repente, de dentro da pequena oca, saiu o Pajé Caeté, limpando a garganta. Todas as atenções se voltaram para ele, quando começou a falar: - Companheiros, que ninguém jamais duvide da classe trabalhadora.
Duas lágrimas cintilantes, refletindo o brilho das fogueiras, escapavam de suas “retinas fadigadas”. E das lágrimas, surgiram dois colibris; um deles, com penas de cor verde-esperança, e o outro de cor vermelho-fogo transformador; ambos desafiavam a lei da gravidade, ora voando para trás, ora pairando no ar e, depois, investindo sobre os companheiros. Tão rápido surgiram, tão rápido sumiram. A mensagem ficou no ar. Um grito quebrou o encanto – Lula lá!!! - Ouviram da Paulista, nas calçadas, de um povo bem cansado, um brado retumbante: Lula lá. Rufaram os tambores. Os dançarinos iniciaram os seus rituais... Lula lá, Lula lá... Foi demais. Eu me deixei contagiar; sonhei novamente, afinal, eu sou humano! Prova disso era aquele nó sufocante na garganta; acontece sempre que eu sonho; e para completar, entoaram também aquele hino nacional para arrebentar o meu peito. Lembro ainda que isso só acontecia momentos antes de entrar na sala de aula, quando eu estudava na escola primária. Lembro-me bem! Todos em fila com a mão direita no coração, - “... iluminado sol do novo mundo”. Novo mundo, ou novo Brasil? Sabíamos o hino na ponta da língua. Bem ao longe, os pais, despreocupados, podiam ouvir aquele coro infantil; aquelas vozes angelicais, cheias de orgulho e esperança; crianças transbordando de sentimento patriótico acreditavam no que os professores costumavam repetir - “As crianças de hoje, serão os homens de amanhã”, aliás, frase que não se ouve mais. Será que os mestres não têm mais certeza do futuro dos seus pupilos? Bem, eu cheguei ao futuro do passado! Sou homem do futuro, ou melhor, de hoje. O hino agora é mais curto. Fácil. Afinal, não temos tanto patriotismo como antigamente. Lula lá. Brilha uma estrela... Lula lá. Letra escrita na linguagem Tupy-Caetés. Lula lá, quer dizer, Pajé na grande Taba.
Sim. Voltei a sonhar, mas quando vi nos olhos da namoradinha do Brasil, o tamanho do medo de ser feliz, suspirei fundo. Pensando bem, acho melhor apelar para o grande Tupã; ao conselho dos ancestrais, se não fizer bem, mal é que não vai fazer, mas, é providencial rogar a eles que protejam o Pajé Caetés, afastando-o das tentações, e livrem-no do assédio dos Caruanas nacionais de más intenções; que o Pajé lembre sempre que a nossa dança não deve se restringir aos salões do Congresso, em devaneios ao som das valsas, e sim, ao som dos atabaques, nas entranhas das florestas ao redor das fogueiras; dançando, cantando, gritando, suando o corpo e machucando a sola dos pés, clamando obviamente aos bons espíritos que afugentem todos os maus espíritos, inclusive, os piratas europeus, dos “MULTI’s”, dos “YE´S” e “OK’s”, discípulos do DRÁCULA, que insistem em explorar as cavernas desprotegidas do “Brazil”, ou melhor, do BRASIL; que apesar de ele ter substituído a sua tanga pelo terno, e o colar de dentes de javali pela gravata de seda importada, jamais deixe de falar a língua Tupy-Caetés. A língua que todos nós entendemos; que esse novo hino, Lula lá, não se transforme em um samba popular de “lara lara”, “pizza lá” e outros “laiás, laiás”; que a fumaça sem óxido do cachimbo do Pajé Caeté possa ser o antídoto que eliminará todos os óxidos nocivos que poluem os ares brasileiros dos brasilíndios, que hoje vivem asilados em seu próprio país; e por último, que não me despertem desse sonho, pois não tenho mais cartas nas mangas, e esse é o meu último sonho, sem medo de ser feliz.