quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Inferno sem pavor (Josué G. de Araujo)

Devo a vida ao instinto
Nessa tal sobrevivência!
É assim que todo dia,
Sobrevivo à existência.
O instinto é quem me salva,
Despertando-me na alva.
Ter a alma de escritor
É entregar-se no deslumbre,
Com a paz só de vislumbre
Num inferno sem pavor.

O tédio é sufocante
E a poesia é salvadora
— Colírio paliativo! —
Grande amiga animadora.
Mas o barco majestoso
Nas águas do mar colosso,
Deriva sem horizonte,
Com bússola sem ponteiro
E o leme sem marinheiro.
O céu parece defronte!

No espelho a imagem,
É você se avelhantando.
Naquele corpo estranho,
Matéria sempre oxidando
E o disparate da vida,
A dor na alma sentida,
É que o corpo envelhece,
Mas a eterna criança
Conserva a esperança,
Vivendo, não se esmorece.

Em total catalepsia,
Com sua plena consciência,
Olhando pelas janelas
Diante dessa incoerência,
A figura envelhecida,
No espelho, desvanecida,
Insiste em ser você.
E o espírito imortal,
Permanece jovial,
Escravo, sempre a mercê.

As pessoas ao redor
Augurando como corvo,
Querem livrar do entulho,
Do improfícuo estorvo.
O espírito amordaçado
Oculto e agrilhoado,
Num paradoxo da vida:
Se, lá dentro ele evolui,
La fora o corpo dilui
Corrompendo a guarida.

No interior da carcaça
Um sábio em letargia
Tem que dormir acordado
Pra cumprir a profecia.
Sufocando seu desejo,
Vivendo só de sobejo,
Engolindo muito sapo,
Achando na solidão
Abrigo e proteção,
Sentindo-se como trapo.

Nessa furna de dois olhos
Contemplando a beleza,
Se cumpre a penitência,
A sanção da natureza:
Medida de repressão,
Visando a evolução,
Da sua própria essência,
Uma questão do espírito
Que lhe parece esquisito,
Sem você ter consciência!

Mesmo assim, você deseja
Tudo o que não pode ter.
Seus sonhos são impossíveis,
E você tenta esquecer!
Lá dentro, puro sadismo,
Lá fora, só masoquismo.
O belo fica mais belo
E a beleza é negada.
A velhice é descartada,
Para um mundo paralelo.

É realmente sufocante
O tédio da existência.
O espírito é cruel,
A vida é incoerência,
Uma absurda imposição,
Com arbítrio por opção:
— Ou a vida ou a morte —
Se a vida, pegue a enxada
E, se a morte, resta à espada.
É um jogo de esporte.

As águas correm pro mar
Por força da natureza.
Nada impede o seu caminho,
Não importa a profundeza.
Voando em nuvens no céu,
Correndo na terra ao léu
Adentrando pelas veias,
Nas artérias da terra,
Pelas estrias da serra,
Descendo sem quaisquer peias.

O planeta deflorado,
Conseqüência do progresso,
Pra salvar a humanidade
É o que diz qualquer congresso.
Quando a terra se queimar
E o verde se acabar,
Tudo estará terminado,
Vamos ser anjos sem asas,
Viver no inferno sem casas,
Com o Diabo malvado.

Extinção lá no inferno,
Esse risco, ninguém corre.
O céu já foi destruído
Por culpa de um grande porre:
Quando os anjos rebelados
Foram então engabelados,
Pela farsa da ambição,
O céu foi todo manchado.
O Diabo já alertado,
Cuidou da preservação.

Miríades exiladas
Do seio da divindade,
São sementes no astral
Que nascem na humanidade.
Infiltram-se na matéria,
Ocultando-se na artéria
Do humano sem juízo.
Usando desse instrumento,
Através do nascimento,
Retornar ao paraíso.

Toda manhã, de manhã
Embora o céu bem sereno
Sempre creio que o dia
Será de sol mais ameno.
Mas se pinta um temporal
Como guerra angelical,
E a procela brame forte
Temo que um raio certeiro
Atinja meu corpo inteiro
Rezo então, para ter sorte.

domingo, 29 de agosto de 2010

Apagando as Pegadas - Contos & Crônicas - Josué G. de Araujo antes do Cordel

Prefácio

Devo levar a vida como uma formiguinha?
Rua Barão de Itapetininga, Centro, São Paulo; manhã de junho. Eu, no centro da maior cidade do Brasil. Todas as manhãs, passo por essa rua, aproximadamente às sete e meia da manhã, para o meu “petit déjeuner”, antes de chegar ao escritório, e me deparo com crianças dormindo sob uma abertura próxima a uma galeria chamada Califórnia.
São crianças de todas as idades, raças e cores; algumas são muito bonitas; mas, de alguma forma, preferem os perigos das ruas e dispensam a proteção dos pais (com quem o risco é maior). Outras perderam os pais. As FEBEM’s, proteção do governo? Não. Melhor ficar nas ruas.
Como ficar indiferente? Como entender? Nas escolas não me ensinaram nada sobre tudo isso.Se fôssemos formigas, tudo seria mais fácil; as formigas não precisam questionar nada, só pensam no trabalho e na perpetuação da espécie. Nada mais. Devo viver como uma formiguinha? Não tenho certeza se vivo de forma diferente de uma formiguinha. O que realmente eu faço para além de mim mesmo? O que é possível fazer? O que eu sei fazer? O que um poeta pode fazer?Um poeta faz o que lhe impõe a inspiração oriunda das musas, do espírito da divindade; a missão do poeta é transmitir à sua espécie humana as mensagens recebidas. Tudo é escrito
Nas páginas da alma, que por sua vez, transpira para as páginas da consciência e, finalmente, exterioriza através dos símbolos da linguagem escrita ou verbal. É desta forma que um poeta, um escritor, um músico, todos os representantes do mundo da Arte, recebem as suas inspirações, que são sempre mensagens de: conhecimento, alegria, rudimentos básicos de orientação para a elevação da alma humana e desenvolvimento intelectual, viabilizando a evolução espiritual.O que mais, além da evolução espiritual, poderia interessar aos deuses, no que concerne à espécie dos seres humanos? As mensagens não pertencem ao poeta, ao escritor, ao artista, enfim, não são direcionadas, exclusivamente, para o instrumento físico usado para a recepção; as mensagens são úteis para aqueles que têm a sensibilidade de percebê-las e fixá-las na própria consciência. Os poetas e todos os transmissores dessas mensagens são, coercivamente, usados pelos deuses. A recompensa dos poetas é o prazer de receber em primeira mão as mensagens impressas diretamente na alma; o toque místico dos dedos das mãos divinas nas linhas da sua alma provoca êxtase; orgasmo mental ao cérebro. Aqueles que as recebem em segunda mão, as mensagens já transformadas em símbolos gráficos ou oral, sentem um prazer mais abrandado, pois o cérebro é quem recebe em primazia e, em seguida, transfere à alma; ao contrário do poeta, as inspirações primam pela alma, objetivando alcançar o cérebro. Não sei quais os critérios usados pelos deuses na escolha dos poetas, no entanto, sei que escolhas erradas podem provocar danos à mente humana; só os verdadeiros poetas têm a faculdade de discernir os códigos das mensagens, com veracidade. Um dom é uma dádiva divina que exige desenvolvimento com desvelo e usufruto impessoal.

Livro lançado pela Editora Caravansarai do Rio de Janeiro: http://www.caravansarai.com.br/
Apagando as Pegadas - Contos e Crônicas - 100 páginas.
O primeiro livro foi um romance de 187 páginas - edição independente - "O Mistério da Bruxa de Areia Dourada".
Atualmente tenho lançado livretos em cordel pela editora Luzeiro em São Paulo. "O Coronel Avarento" - 32 páginas em versos - "O Mistério da Pele da Novilha" - 32 páginas em versos.
Encontrei-me no cordel. Dificil agora é pensar em prosa para escrever. O cordel dinamizou a minha vida literária.
Josué


sábado, 28 de fevereiro de 2009

Contos do livro "Apagando as Pegadas"


"Apagando as pegadas" - (primeiro conto)

Numa tarde nebulosa de inverno, um ônibus vence o nevoeiro e estaciona na rodoviária da pequena cidade de Areia Dourada. Um passageiro com passos curtos e pesados desembarca. Negro de estatura alta, trajando um terno cinza e na cabeça um chapéu de feltro de abas curtas que protegia os olhos da neblina gelada. Apoiando-se numa bengala com uma das mãos, usou a outra para retirar um lenço branco do bolso do paletó. Olhou na direção do ponto de táxi à sua frente, franzindo as rugas do sobrolho. Pressionou lentamente o lenço na testa, enquanto fechava os olhos para o presente, esquadrinhando as imagens do passado.
“Rememora a cidade com suas ruas de terra e muitas crianças brincando sob olhares alegres dos pais, nas portas e nas janelas das casas em madeira; lavradores com carroças e peões montados em cavalos numa rotina campestre; o ponto de charretes em frente...” Abre os olhos e se vê ali, no mesmo cenário do passado, mas em outra dimensão do tempo.
O lenço deslizou pelas faces enxugando as gotículas da neblina, acentuando o brilho da pele lisa e sedosa, que resistiu às hostilidades do tempo por mais de setenta invernos, revelando a superioridade da pigmentação que forma a tez escura.
O motorista solícito abriu a porta do táxi: – Permita-me uma observação, mas o senhor é o primeiro passageiro que se refere a essa praça pelo seu antigo nome. - O táxi partiu rodando sobre o asfalto em direção ao sul da cidade, e o passageiro sentiu a aragem fria gelar a sua pela. Outrora os cascos de um cavalo estariam batendo na terra seca e uma charrete de capota conversível deslizando suavemente, com visão ampla permitindo o vento irreverente soprar-lhe, suavemente, as faces.
- Está me dizendo que não existe mais a Praça Erva de Passarinho, meu jovem?
- A praça é a mesma, senhor, mas, quando eu nasci, ela já havia mudado de nome.
- Quantos anos têm?
- Dezenove anos, senhor.
- Dezenove anos! – O passageiro voltou a mergulhar em suas recordações - era a sua idade quando partiu dessa cidade. Faz muito tempo... Mais de meio século e, ainda ignorando as regras do tempo, o passado insiste em se manter vivo, como sombra embotando o presente. Usa-o como hospedeiro, semelhante a uma orquídea que vive parasitando no tronco de alguma árvore. Lembranças fortes que não se apagam na memória; lembranças imortais? O rastro do tempo permanece na memória; um rastro com pegadas tão profundas que nem mesmo a areia soprada pelas tempestades, durante meio século, conseguiu cobri-las. Quiçá, retornando ao ponto de partida, pisando em cada pegada, possa transformá-las em novas pegadas, menos profundas, tão rasas que a areia do tempo poderá apagá-las!
- Chegamos, senhor! Essa é a antiga Praça Erva de Passarinho.
Uma antiga pracinha, com plantas arbustivas, transformada pelo tempo em uma floresta de gigantescas arvores e palmeiras, que espanam as nuvens do céu com suas folhas. Casais de adolescentes poderiam se ocultar em suas entranhas e namorar, dispensando as regras do antigo romantismo. O táxi foi dispensado e com mais alguns passos, eis que surge, no centro da praça, o marco inicial da sua jornada. O lugar é o mesmo, mas a madeira do banco foi transformada em mármore. Sentou-se, pesadamente. Saudades, nostalgia, emoções e lembranças vivas afloraram aos turbilhões das vísceras do cérebro, atingindo as fibras do coração, semelhantes a descargas de eletricidades atmosféricas. A bengala rolou do assento do banco; o chapéu foi retirado, exibindo a abóbada craniana revestida, externamente, por um tapete de lãs de algodão, branquinhas, branquinhas...
Seria ilusão acreditar que tudo continua existindo em nós, porque o cérebro registra os efetivos eventos do tempo, nas páginas da memória? A memória é a estrada do passado e as pegadas são as lembranças. O coração resistiu a todas as batalhas, porque, como um guerreiro, empunhou a sua espada com a inabalável esperança de vencê-las. A roda da vida completou mais um círculo. A mão negra sem manchas apertou o peito para acalmar a procela do coração. As lágrimas que se mesclavam com as gotículas da neblina eram enxugadas com o lenço branco. Além dos limites da praça, o nevoeiro não permitia a visibilidade. Uma figura feminina com a espinha dorsal curvada pelo avançado do tempo empunhava a sua bengala, rompendo o nevoeiro em direção ao centro da praça.
Apoiou-se na bengala para sentar na outra ponta do banco com extremo esforço. A bengala escapou-lhe das mãos, rolando para se juntar a outra. Um tempinho para respirar e recompor-se, antes de cumprimentar, com muita suavidade na voz, o eventual parceiro de banco. A simpática personagem tinha as faces esborrifadas com pintas escuras, realçando a tristeza dos olhos emboscados por vultosas espirais de rugas, espelhando a medida do tempo. Cabelos ralos tingidos na cor castanha em sintonia com o tom avermelhado dos seus lábios finos.
- Conheço todas as pessoas dessa cidade, mas não me lembro do senhor. A poeira do tempo embota a memória da gente e...
- Sou um forasteiro que retornou ao cenário do passado para varrer as suas pegadas.
- Não se apaga o próprio rastro, se continuas a caminhar!
O velho ergueu o olhar para os céus, jazendo em silêncio como se buscasse um alento para responder a essa questão, mas a delicada velhinha quebrou o silêncio. – Conte-me sua história, afinal, somos parceiros da mesma estrada.
Tomado de súbito, procurou refletir rápido – “contar a minha vida para uma estranha?” - Mas a essa altura, não faria nenhum sentido temer a exposição da sua vida. No final da estrada, o que resta para temer é o incógnito da passagem dos portais.
- Vou lhe contar a minha história, cara senhora – respirou fundo e começou a falar com voz rouca. – Apaixonei-me na adolescência por uma garota de pele branca; tão branca como a neve. Era final da década de quarenta e eu era um novo morador da cidade. No primeiro dia na escola, topei com uma garota. Topei mesmo! Estava correndo para ir ao banheiro do outro lado do pátio e inesperadamente esbarrei-me nela; voaram cadernos e livros para todos os lados. Ficamos agachados por segundos eternos; olhos nos olhos, e mais tarde descobrimos que éramos colegas de classe. A professora pediu para formarmos grupos de dois e, para surpresa minha, ela escolheu-me... eu sabia que, do contrário, ficaria sobrando. Ninguém iria se interessar em ser parceiro de um forasteiro negro. Durante um longo período, só ela se comunicava comigo. Mantivemos estreita amizade durante um ano, mas estava difícil conservar molhado o pavio daquela bomba. Estudávamos e fazíamos trabalhos escolares juntos, inclusive na casa dela. Aqueles eram tempos difíceis para tudo o que se referia a relacionamentos de homem e mulher. Moças virgens só saiam de suas casas acompanhadas por parentes ou por damas de companhia. Uma tarde eu proseava com duas colegas da escola, aqui mesmo, nesse banco, e de repente, as garotas se levantaram e se despediram. Logo entendi a pressa das colegas. A minha paixão platônica estava chegando da escola de datilografia, sem a habitual dama de companhia.
- O que elas queriam? Por que esse repentino interesse por você? Agora passaram a fazer-lhe a corte? Qual a intenção de todo esse assédio, por parte delas? Sabia que elas se referem a você como “o deus grego bronzeado pelo sol da manhã”?
Enquanto ela tomava fôlego, usei de um pouco de audácia: - Você está com ciúme?
- Eu? Com ciúme de você? – ela baixou os olhos. - Estou sim.
- Por quê?
- Oras, por quê! Por quê! Por quê? Eu estou apaixonada por você, há bastante tempo, se você não percebeu ainda, é porque é um cego – ela esfregou as faces com as mãos, com certo nervosismo.
- Então somos os dois cegos, meu amor! Eu amo você há muito mais tempo. Eu a amo desde aquele nosso esbarrão, providencial, no pátio da escola – enquanto me declarava, ela permanecia muda com o olhar fixo nos meus, até que aconteceu o nosso primeiro e único beijo. Ela sorria e chorava, simultaneamente, enxugando as lágrimas com as costas das mãos trêmulas pela emoção. Eu temia que tudo não passasse de um maravilhoso sonho, e foi ela mesma quem deu o alerta da realidade.
- Meu querido! E agora? Os meus pais jamais permitirão o nosso amor!
O simples pensamento de perdê-la deixava-me em pânico; e eu tinha todos os motivos do mundo para me apavorar: um negro pobre apaixonado por uma garota branca, filha de um rico fazendeiro, cuja esposa, bela e elegante, sonhava com badalações e frivolidades das rodas sociais, em alguma metrópole. Aventamos a possibilidade de uma fuga; fugirmos para bem longe, mas reconhecemos que essa idéia louca não era viável, pois eu não possuía recursos para executá-la. Longe dessas preocupações, a vida se tornava, a cada dia, vibrante e bela em demasia. O fotógrafo do jardim registrou um dos nossos momentos, sentados no banco de mãos dadas. Ela se apossou da foto como se fosse uma relíquia.
Guardamos o nosso amor com todo zelo, por um ano, mas o destino tem as suas regras e limites de tempo para cada lance no jogo da vida. Recebi uma carta dela relatando a violação da sua privacidade pela mãe. Enquanto dormia, esta lera todo o seu diário, tomando conhecimento de toda a história do nosso amor. A mãe relatou tudo ao marido e ambos ficaram tão chocados que providenciaram, imediatamente, a venda de tudo que possuíam na região. Iriam se mudar para outro estado, onde eram proprietários de outras fazendas. Nos trechos da carta, percebia-se toda a sua agonia: “Meu amor, foi horrível! Não vejo salvação para o nosso amor. Estou desesperançada e injuriada. Eles bradaram aos quatro cantos do mundo as suas falsas e vergonhosas verdades, como argumentos para justificar a rejeição do nosso amor. Não tiveram o mínimo respeito pelos meus sentimentos – vejam essas palavras horríveis, pronunciadas pelo meu pai: ‘Você não pensou que eu conceberia a idéia de aceitar um genro que, além de não ter onde cair morto, é um negro? Eu jamais terei um bastardo mulato como neto. A pobreza é uma mancha escura na pele que pode ser dourada com o brilho do ouro, mas a negritude do sangue é incurável.’ Decidiram que eu vou à Capital com a minha mãe para tratar do meu futuro – casar com o filho do meu padrinho, um rapaz que eu não suporto.”
Ao término da leitura, chorei como criança, sentindo-me impotente e acuado como uma fera enjaulada. Blasfemei contra Deus por não ter previsto todos os sofrimentos oriundos dessa heterogeneidade de cores da pele, de raça, de níveis sociais, dessas diferenças criadas pela incongruência humana. No dia seguinte soube que ela estava na rodoviária acompanhada da mãe, prontas para embarcarem. Que desespero! Sai correndo alucinadamente pelas ruas na direção da rodoviária, chegando no momento em que o ônibus estava partindo. Corri gritando como um insano ao lado da janela, despojado de todos os meus brios: Lucineide... Lucineide, meu amor!
Ela colocou a cabeça para fora da janela e eu a vi em prantos. Jogou pela janela a metade da nossa foto, a parte em que ela aparecia. Fiquei com a foto nas mãos, vendo o ônibus desaparecer na poeira levantada do areão da estrada. Nunca mais me separei desse pedaço de foto. Algum tempo depois, os meus pais decidiram partir para a Capital de São Paulo, pois não suportavam mais assistir à minha tristeza. “Talvez em outra cidade ele possa esquecê-la e retomar a sua vida.” Esquecê-la foi a única coisa que eu jamais consegui. Formei-me em direito e montei o meu escritório. De dia o advogado e à noite o boêmio. Precisava alegrar a minha vida, mas logo entendi que a boemia é o refúgio dos espíritos atormentados pela solidão. Mais e mais solidão era o que eu encontrava todas as noites nos bares da noite. Livrei-me dessa vida estúrdia e passei a preencher o tempo estúpido da minha existência entre o trabalho, os livros, as meditações e a cama, onde dormir era morrer todas as noites, para renascer nas manhãs, sem ser consultado. O trabalho era a única atividade que me prendia ao presente; os livros eram naves que me transportavam para todo o universo, à velocidade do pensamento; as meditações me transladavam para o passado, e a cama era a morte em fragmentos. Mais de meio século improfícuo e eu decidi retornar pelo caminho das pegadas. Agora que estou aqui, não sei o que fazer.
A parceira do banco estava em lágrimas. Puxou o ar com esforço, como se aspirasse mais uma lufada adicional de vida, antes de começar a falar com voz nostálgica.
- Na minha adolescência, eu também renunciei a um grande amor; um amor impossível. Parti para bem longe e me casaria com outro, se ele não tivesse morrido antes do enlace matrimonial. Um jovem muito arrogante que, quando estava alcoolizado, se metia em brigas de botecos, onde puseram um fim à sua vida. A morte daquele que poderia ter sido o meu marido alertou-me para o verdadeiro significado da vida. Renunciei à minha família e voltei a essa cidade, na esperança de reencontrar o meu amor. Alguém me informou que o meu amado havia partido para algum lugar desconhecido. Nunca senti tamanha angústia na minha vida. Tornei-me professora na escola da cidade e durante todos os dias desses anos vim a esse banco, na esperança de encontrá-lo – a velhinha retirou da bolsa metade de uma foto amarelada pela ação do tempo e juntou a outra metade que estava nas mãos do seu parceiro ao lado. As lágrimas rolavam dos olhos e a emoção era avassalante para o seu velho coração.
- Eu sou a sua Lucineide, meu amor! José Mário, meu querido, eu sempre te amei, jamais te esqueci e sempre te esperei. Todos esses anos eu estive aqui... à sua... espera.
José Mário olhava as duas metades da foto, unidas, se completando na foto original. Duas lágrimas caíram, se espalhando sobre a foto. Voltou-se para a sua parceira ao lado, procurando o seu olhar. Reconheceu aqueles olhos amados e jamais esquecidos. Mentalmente fez uma oração: “Perdoe meu Deus, por ter sido um dia, um blasfemo. Obrigado por devolvê-la a mim, no momento de nossa partida final.”
Seus lábios se uniram levemente pela segunda e última vez. – Lucineide, meu amor, perdoe-me por tê-la feito esperar, tanto tempo.
- Não se preocupe querido, agora temos uma eternidade para ficarmos juntos. No céu os espíritos não têm cor, raça e desconhecem o brilho enganoso do ouro.
Lucineide encostou a cabeça no ombro de José Mário e fechou os olhos. Ele apertou o coração com a mão e encostou a sua cabeça sobre a cabeça dela.
Na manhã seguinte, o vigia do jardim encontrou-os na mesma posição, com os corpos orvalhados, e os raios do sol cintilando em cada gota de orvalho.

Josué Gonçalves de Araujo

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Crônica do livro - Apagando as pegadas

(Em 27 de outubro de 2002, aos 57 anos de idade, com quase 53 milhões de votos, Luiz Inácio Lula da Silva é eleito Presidente da República Federativa do Brasil. Esse artigo (abaixo) foi publicado no editorial do Jornal “Destaque News”, da região de Tietê, 13 dias depois).

***
Help Tupy-Caetés (Josué G. de Araújo)

Quem nunca sonhou com a pátria amada, amada e cantada em coro, por todos os brasileiros?
“...Ó pátria amada, idolatrada, salve! Salve!”
São poucas as oportunidades para celebrar festas cívicas, ou extravasar sentimentos patrióticos. Mas, finalmente, estamos vivendo um momento oportuno. Algo novo aconteceu na política; não uma política nova, pois, sabemos que a política é mais velha que a própria humanidade. O primeiro ato político de que se tem notícia ocorreu quando da rebelião dos anjos, época em que ainda não havia sido gerado o primeiro filho na terra. O pavio da explosão demográfica não havia sido aceso. Um dos mais poderosos e inteligentes dos anjos, Lúcifer, liderou a terça parte dos soldados angelicais, objetivando destronar o Criador. Houve guerra, mas os anjos rebeldes foram derrotados e expulsos dos céus. A política, também, foi a causa do primeiro assassinato humano. Segundo a Bíblia, Caim matou Abel em uma disputa de influência, pois ambos queriam agradar a Deus. A existência de um ser humano é precedida por uma guerra de milhões de espermatozóides, na disputa por um óvulo. Após o nascimento, a política continua na luta pela sobrevivência; sobrevivência da própria vida, a qual, dela, nós não temos consciência de nada, nem mesmo se optamos por aceitá-la. Mas o fato é que, até sonhando, fazemos política. A política sempre foi usada como um instrumento do bem e do mal. Sonhamos com o que de melhor ela pode nos proporcionar, mas o fato de a maioria dos nossos sonhos se transformarem em pesadelos não nos impede de continuar sonhando. Conclusão, os ares do Brasil, com o oxigênio renovado, fizeram-me sonhar novamente: noite escura e a selva em silêncio; ao redor das fogueiras, concentravam-se os brasilíndios, cansados e céticos; de repente, de dentro da pequena oca, saiu o Pajé Caeté, limpando a garganta. Todas as atenções se voltaram para ele, quando começou a falar: - Companheiros, que ninguém jamais duvide da classe trabalhadora.
Duas lágrimas cintilantes, refletindo o brilho das fogueiras, escapavam de suas “retinas fadigadas”. E das lágrimas, surgiram dois colibris; um deles, com penas de cor verde-esperança, e o outro de cor vermelho-fogo transformador; ambos desafiavam a lei da gravidade, ora voando para trás, ora pairando no ar e, depois, investindo sobre os companheiros. Tão rápido surgiram, tão rápido sumiram. A mensagem ficou no ar. Um grito quebrou o encanto – Lula lá!!! - Ouviram da Paulista, nas calçadas, de um povo bem cansado, um brado retumbante: Lula lá. Rufaram os tambores. Os dançarinos iniciaram os seus rituais... Lula lá, Lula lá... Foi demais. Eu me deixei contagiar; sonhei novamente, afinal, eu sou humano! Prova disso era aquele nó sufocante na garganta; acontece sempre que eu sonho; e para completar, entoaram também aquele hino nacional para arrebentar o meu peito. Lembro ainda que isso só acontecia momentos antes de entrar na sala de aula, quando eu estudava na escola primária. Lembro-me bem! Todos em fila com a mão direita no coração, - “... iluminado sol do novo mundo”. Novo mundo, ou novo Brasil? Sabíamos o hino na ponta da língua. Bem ao longe, os pais, despreocupados, podiam ouvir aquele coro infantil; aquelas vozes angelicais, cheias de orgulho e esperança; crianças transbordando de sentimento patriótico acreditavam no que os professores costumavam repetir - “As crianças de hoje, serão os homens de amanhã”, aliás, frase que não se ouve mais. Será que os mestres não têm mais certeza do futuro dos seus pupilos? Bem, eu cheguei ao futuro do passado! Sou homem do futuro, ou melhor, de hoje. O hino agora é mais curto. Fácil. Afinal, não temos tanto patriotismo como antigamente. Lula lá. Brilha uma estrela... Lula lá. Letra escrita na linguagem Tupy-Caetés. Lula lá, quer dizer, Pajé na grande Taba.
Sim. Voltei a sonhar, mas quando vi nos olhos da namoradinha do Brasil, o tamanho do medo de ser feliz, suspirei fundo. Pensando bem, acho melhor apelar para o grande Tupã; ao conselho dos ancestrais, se não fizer bem, mal é que não vai fazer, mas, é providencial rogar a eles que protejam o Pajé Caetés, afastando-o das tentações, e livrem-no do assédio dos Caruanas nacionais de más intenções; que o Pajé lembre sempre que a nossa dança não deve se restringir aos salões do Congresso, em devaneios ao som das valsas, e sim, ao som dos atabaques, nas entranhas das florestas ao redor das fogueiras; dançando, cantando, gritando, suando o corpo e machucando a sola dos pés, clamando obviamente aos bons espíritos que afugentem todos os maus espíritos, inclusive, os piratas europeus, dos “MULTI’s”, dos “YE´S” e “OK’s”, discípulos do DRÁCULA, que insistem em explorar as cavernas desprotegidas do “Brazil”, ou melhor, do BRASIL; que apesar de ele ter substituído a sua tanga pelo terno, e o colar de dentes de javali pela gravata de seda importada, jamais deixe de falar a língua Tupy-Caetés. A língua que todos nós entendemos; que esse novo hino, Lula lá, não se transforme em um samba popular de “lara lara”, “pizza lá” e outros “laiás, laiás”; que a fumaça sem óxido do cachimbo do Pajé Caeté possa ser o antídoto que eliminará todos os óxidos nocivos que poluem os ares brasileiros dos brasilíndios, que hoje vivem asilados em seu próprio país; e por último, que não me despertem desse sonho, pois não tenho mais cartas nas mangas, e esse é o meu último sonho, sem medo de ser feliz.

sábado, 31 de janeiro de 2009

As Rugas resguardatárias da minha mãe


Não tenho nem um pingo de vergonha de contar, aliás, sinto até certo prazer. Masoquismo? Sei lá! De mais a mais, se eu mesmo não contar, ninguém vai contar. Nem mesmo a mim, me contaram, mas eu sei de tudo. Como eu sei? Não sei. São aquelas coisas que a gente sabe que sabe, mas não sabe como sabe; Seja lá o que for, isso não vem ao caso, vamos ao que interessa. Vou contar porque a minha mãe tem tantas rugas.
Tudo começou numa daquelas vezes, em que a cegonha foi visitá-la; para ser mais exato, foram onze vezes. Ela teve dez filhos, de cuja série, eu sou o primogênito. Por que onze vezes, se ela só teve dez filhos? Ah! É ai que esta toda a razão desse causo. Aconteceu que por ocasião do meu nascimento, a cegonha foi a minha casa duas vezes. Quando essa incansável criatura avoante levou o primeiro pacote de filhos a minha mãe, a pobre mulher levou um grande susto e franziu a testa formando rugas profundas:
- Valei-me Deus! Que presepada é esta?
Era eu. Eu em membros, tronco e cabeça, mais cabeça que tronco e membros. Eu era feio demais da conta; cabeçudo; orelhudo; parecia mais, um cruzamento de soim desnutrido com caburé orelhudo. O susto foi tão impactante que, a minha mãe teve o resguardo quebrado e em conseqüência, as suas rugas se tornaram irreversíveis, para não dizer, eternas. A cegonha mais que depressa, botou o rabo entre as pernas e partiu calada; partiu, mas ao sentir-se leve, planando nas nuvens, a consciência pesou e ela retornou. Bateu na janela do quarto da minha mãe, que cedendo aos instintos maternos, acomodava o bico do peito na minha boca ansiosa.
- Psiu! Dona Nina? Sou eu! A cegonha...
- Valei-me Deus! O parto ainda não acabou? Vou ter gêmeos? Já não bastava um bebê tão feio, ainda tem mais um pra nascer? Parteira? – gritou minha mãe com visível expressão de desapontamento – o parto ainda não terminou!
O bico do peito escapou abruptamente da minha boca, espirrando leite nos meus olhos.
- Calma Dona Nina! – tentava explicar a cegonha - Não é nada disso...
- Ah! Entendi! Você percebeu o engano... Descobriu que me trouxe o bebê errado?
Mais que depressa, minha mãe atirou-me para os braços da cegonha, esquecendo que aqueles braços também eram pernas. A infeliz, da mensageira de bebês, tentou prensar-me contra o batente da janela, com uma das pernas, enquanto se sustinha na outra, mas a minha pesada bola óssea, protetora do meu volumoso encéfalo, ameaçava malograr o arranjo da equilibrista. A carcaça esquelética começou a pender pro lado do cabeção.
A situação atingiu aquele ponto máximo da acuidade, exigindo uma ação rápida e eficaz. A cegonha vislumbrou a única alternativa possível, ou seja, cravou o seu potente bico na minha orelha direita, na tentativa de manter o equilíbrio da massa cadavérica, aliás, até hoje minha orelha permanece esticada.
A parteira entrou no quarto e correu para a janela em socorro da cegonha. A primeira coisa que a mão dela alcançou, apertou e puxou. Tudo eu havia suportado com muita resignação, mas aquilo já era demais; soltei os cachorros e berrei. A cegonha, percebendo a causa do meu protesto, sussurrou sem soltar a orelha do bico, alertando a parteira da sua falta de tato, na manipulação com recém-nascidos – Isso ai não é o pé do bebê, Dona parteira?
- Logo vi que estava muito mole para ser o pé do pobrezinho – Comentou a parteira demonstrando constrangimento, enquanto me resgatava das garras da cegonha, livrando-me da eminente ameaça de cair e rachar o cabeção.
Finalmente, fui entregue, mais uma vez, a minha mãe.
– Dona Nina – disse a parteira com firmeza – esse é o seu bebê, oxente! Pois não fui eu mesma, quem fez o parto?
- Mas então, por que a cegonha voltou?
A cegonha que permanecia amofinada no canto do batente da janela, tentou esclarecer o qüiproquó:
- Dona Nina, eu voltei para lhe pedir desculpas, ou melhor, para consolar a senhora...enfim, acho melhor eu partir antes que a coisa fica mais preta. Adeus.
A cegonha partiu e a parteira deitou-me na cama, abrindo as minhas perninhas e conferindo se havia feito algum estrago irremediável.
- Sabe Dona Nina – disse ela com olhos de quem está ponderando - acho que ele será um homem bem interessante. Quem sabe até bonitinho, também!
- Queira Deus – sussurrou a minha mãe.
- Pra Deus tudo é possível, não é mesmo Dona Nina?
Eu cresci, não tinha outro jeito mesmo, mas enquanto engatinhava, ninguém me resgatava do chão frio para o aconchego de um colo, por causa da minha feiúra. Pra não congelar a bunda, tive que aprender a andar prematuramente.
Josué G. de Araújo

domingo, 28 de dezembro de 2008

Festa de lançamento do livro Apagando as Pegadas


O evento literário aconteceu no espaço cultural da Biblioteca Municipal de São Paulo no dia 18 de dezembro a noite. Entre os convidados estava a professora Sueli Gonçalves, idealizadora do projeto AEL - Academia Estudantil de Letras em escolas municipais, o Escritor e Editor Benedicto uz e Silva premiado com o "Prêmio Nacional Clube do Livro - 1968" com o livro "Um corpo na chuva" e em 1965 em 3º lugar com o livro "Sol nos olhos". Foi uma memorável noite com um belo discurso da representante da AEL.
Discurso


















Editor e Escritor Benedicto Luz Silva















AEL - Professora Sueli Gonçalves










A Editora do livro
Editora caravansarai
Discurso na festa.

domingo, 30 de novembro de 2008

Lançamento do 2º livro na Casa da Cultura da Penha

Conto com a presença de todos para uma descontraida e bela festa literária. Literatura, poesia e musica são manjares para a alma. Ela também precisa ser alimentada

sábado, 22 de novembro de 2008

Apagando as pegadas - Lançamento de livro


Capa:
Josué Gonçalves de Araújo
convidado para uma palestra na Academia Estudantil de Letras do colégio Padre Antonio Vieira. Uma sala repleta de adolescentes com fardões, imitando os rituais da ABL. Recepcionado por um grupo de alunos posicionados sobre um cenário, teve início de imediato uma apresentação teatral do seu até então único conto, “Os Fariseus da Catedral.” Terminado a apresentação, emocionado, ele não tinha mais idéia de como realizaria a palestra. Até aquele momento ele havia escrito apenas romances. A partir daquele dia, passou a sonhar com contos. Certa vez, entrou num vagão do metro e notou à sua frente um velhinho que cochilava sobre o banco cinza, reservado para pessoas com restrições de mobilidade. Uma linda jovem sentou na segunda vaga do banco cinza. Pintou a inspiração; transformou a jovem em uma personagem e escreveu o seu segundo conto – “Não julgueis”. Um portal parece ter-se aberto para o palácio das musas, pois os contos vieram em fila, como bois seguindo uma trilha para o bebedouro. O conto “Apagando as Pegadas” foi o último, o que mais me sensibilizou...
A venda no site da editora: http://www.caravansarai.com.br/
ou
no site do autor: www.josuearaujo.com

sábado, 6 de setembro de 2008

Breve lançamento de livro de contos


Novo livro de contos -
"Apagando as pegadas".
Josué Gonçalves de Araújo
Caravansarai Editora
ISBN: 978-85-89862-34-9
R$ 25,00


O livro ja esta sendo vendido pela editora através do site:

http://www.caravansarai.com.br/

A proprietária da editora - Eliana Leal, também é escritora dos livros: "Nunca abra mão dos seus sonhos" e " Você tem obrigação de ser feliz".

Editora: http://www.caravansarai.com.br/

terça-feira, 29 de julho de 2008

Membro Ael - Cecilia Meirelles


Festa de aniversário do primeiro ano da Academia Estudantil de Letras do colégio Cecília Meirelles, no teatro do Céu da Vila Cisper.